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[...]

IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

[...]

IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

[...]

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Espíritos Livres

A ignorância é preferível ao erro, e está menos afastado da verdade aquele que não acredita em nada do que aquele que acredita em algo errado.” (Thomas Jefferson)

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Militar do Exército Brasileiro formado pelo Escola de Saúde do Exército, Bacharel em Direito pela URCAMP, blogueiro, ATEU, livre pensador e filósofo por natureza. Procuro o equilíbrio através do conhecimento. “Pareceis inteligente de tal forma que, no dia em que errardes, sereis visto como irônico.”

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Último Sermão do Padre Bartolo



Caros Livres Pensadores

Há pouco tempo atrás recebi um e-mail do sr. Juanico di Salvo - escritor, blogueiro (http://www.juanico.com.br/Index.php/) e também livre pensador – elogiando este blog e divulgando seu mais recente livro, "Penso, Logo Complico".
Como aperitivo, cedeu gentilmente dois de seus textos para divulgação, quais sejam: "O Último Sermão do Padre Bartolo" e "Discurso de Paraninfo". Sinceramente, gostei muito do que li e parece que a obra é promissora. Inteligentes e bem humorados, seus textos abordam exatamente o que este blog propõem: o livre pensar e expressar. Segue um "pitaco" para que todos saboreiem. Bon appétit.


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O Último Sermão do Padre Bartolo

Juanico di Salvo


O padre Bartolo inicia sua leitura:

Estando Jesus a caminho da Galiléia eis que aproximou-se dele um grupo de homens vindos de Jericó. Eles carregavam um jovem que aparentava estar morto. Deitaram-no no chão e pediram ajuda ao Senhor. – Senhor, só tu podes ajudar-nos em nossa dor e na nossa ignorância sobre a morte do nosso irmão.
Ouvindo isso, Jesus lhes disse: “como podeis ter certeza da morte deste homem?”
E eis que no grupo havia um homem chamado Flavius, que disse, “Senhor, ele não respira!”
E Jesus lhe disse, “E isso é prova definitiva de que esteja morto?”
Então Flavius insistiu: “podes ver com teus próprios olhos, Senhor, ele não se mexe”.
E então Jesus olhou atentamente para o homem deitado e disse: “Já pensaram que isso pode ser um truque? Olhai isto...” (mostra uma rigidez engraçada, do tipo “estátua”). Ao ver isso todos ficaram admirados. E o irmão maior de Flavius disse: “tua performance é verdadeiramente notável, Senhor, nunca havíamos visto algo assim antes. Tu deves ser um ator profissional. Agora, se me permites observar, o corpo que trouxemos à tua presença já começa a apodrecer”.
E Jesus disse, “pois então vos pergunto, homens de Jericó: onde está a vossa fé? Já tentastes lhe fazer cócegas nos sovacos?”
E um deles respondeu: “Sim, Mestre, mas ele não deu sinal de vida.”
Mas Jesus ainda não estava convencido e perguntou: – “... e na planta dos pés?”
E Flavius respondeu com firmeza: – “... também já tentamos, Mestre, mas ele não reagiu.”
Porém, o Senhor não desistia facilmente e lhes perguntou: – Tiraram-lhe as sandálias antes de lhe aplicar cócegas na planta dos pés?
E então Flavius disse: – “Sim, Senhor, de fato lhe tiramos as duas sandálias. Agora ele está em tuas mãos, só tu podes nos ajudar!”
E Jesus calmamente falou: – “Em verdade vos digo, homens de Jericó: vocês estão certos, isto não é um truque, o homem que agora jaz deitado no chão, está realmente morto!”
E todos os presentes viram que aquilo era a mais pura verdade e viram que isso era bom e se regozijaram e disseram: – “Muito obrigado, Senhor! Nossa viagem não foi em vão, vos sois realmente o Messias, o filho de Deus, aquele que veio para nos trazer a verdade.”

(Fim da leitura)

Nesta passagem Jesus nos diz que se não conseguimos mudar a realidade, temos que mudar o paradigma. Como fazem os analistas financeiros, esses santos modernos do Deus “mercado”... Eles mudam suas análises para explicar o que já aconteceu, mas nunca sabem o que vai acontecer amanhã.
Jesus nos ensina a não perder tempo pedindo-lhe milagres inviáveis, bem como a tirar todas nossas dúvidas antes de aceitar a realidade como ela é.
Quando um pênalti está prestes a ser cobrado, não há sempre torcedores rezando para que a bola entre, e torcedores rezando para que o goleiro defenda? Se Ele realmente torcesse por algum time, algum outro time teria chance? Se Ele está conosco, quem estará contra nós? Irmãos, não há fé que possa resolver o drama de um time de pernas de pau.
Exemplo clássico foi o nosso irmão Adelir, “o padre baloeiro”. Que Deus o tenha! Pois com toda sua fé não encontrou proteção contra os ventos fortes do litoral, nem tomada nas alturas para carregar a bateria do seu celular... Deus sabe o que faz, e o que deixa de fazer.
Nossa eucaristia tem-se tornado um sucesso nacional graças ao novo tempero que introduzimos no preparo das nossas hóstias. Aliás, tenho visto muita gente comungar, e depois retornar à fila para repetir... E vos digo: evitemos esta prática para não retardar o andamento da fila. Sei que não é fácil resistir às tentações da gula! É só falar em hóstias e muitos de vocês começam a salivar... Paciência!
Sabemos da importância dos temperos para o desenvolvimento da humanidade. O primeiro tempero humano que conhecemos foi usado para salgar o pão. Pois está escrito: “comerás o pão com o suor do teu rosto...”
Mantemos em segredo a receita das nossas hóstias, pois muitos padeiros e confeiteiros já tentaram nos imitar. Sem sucesso. Os seguidores da nossa paróquia triplicaram, e também triplicou nossa arrecadação mensal. E graças a quem? Às nossas hóstias temperadas.
Achei oportuno interceder pelos nossos dizimistas e pleitear junto à arquidiocese uma redução do dízimo para a metade do valor. Se Ele está conosco, quem estará contra nós? Hummm... na primeira instância não fui atendido. Na segunda me acusaram de rebeldia. É por isso que temos hoje a presença do Monsenhor Bernabeu e do Arcebispo Dom Eusébio, acompanhando o meu caso. Eles vieram à paisana.
Na minha missa de despedida (suspiro), vejo com alegria a presença de muitos jovens. Alguns são frequentadores dominicais assíduos que sentirão minha falta, outros vieram só para ter certeza da minha partida.
Caros irmãos, nossa juventude anda confusa pelos maus exemplos dos mais velhos. Juízes do outro lado da balança da justiça, padres pedófilos, falsos profetas, políticos de butequim, empresários lobistas e velhos pornógrafos infantis. Nossos jovens perderam as referências e não sabem mais a quem seguir.
Vi um jovem parado na esquina lendo no vidro de um carro um bonito adesivo: “Jesus salva”. Logo atrás vinha outro carro com outro adesivo: “Ecco Salva”. Perceberam a confusão na cabeça deste jovem? Num outro adesivo lia: “Jesus é o maior, o diabo não está com nada!”. Haja provocação. Não se brinca com fogo!
Nos jornais vemos psicólogos cometendo suicídio e jovens médicos morrendo de automedicação! De um empreiteiro ouvi as receitas que andam de boca em boca: “O combustível da política é a propina. Já conheci políticos honestos, mas evito-os, são os que cobram mais caro. Se quiser dobrar um político honesto, dobre-lhe a propina”, etc.
Muitas seitas consideravam a televisão uma coisa do demônio. É claro que tem muito lixo na televisão, nem vou citar os reality shows porque sei de gente respeitável, como o arcebispo, que não perde um lance. Mesmo assim, nós nunca classificamos a televisão como coisa do demônio. Cada qual tem seu livre-arbítrio. Eu adoro o Discovery! Mas já notaram quantos demônios tiram das pessoas pela televisão?
Um jovem acompanhou uma amiga no templo de uma igreja que não vou citar, por questões éticas. No meio do culto ele foi arrastado até o meio do altar por dois leões de chácara que o sacudiram, bateram na sua cabeça, nas costelas e no traseiro. Então, ele me disse, “nunca imaginei que os demônios se alojassem em lugares tão improváveis. Na cabeça ainda vai, mas no meu traseiro, padre Bartolo?! Me tiraram 5 demônios... e a carteira!”
Usemos a inteligência que Deus nos deu. Temos que separar o joio, mas ficar com o trigo!
Encontrar Jesus virou moda. Mas parece que muitos dos que encontraram Jesus não aproveitaram bem a oportunidade. Ou encontraram Jesus ocupado com outras coisas. Vejam o exemplo do dono do açougue “A carne é fraca”, aqui em frente. Disse ele que havia conversado com Jesus e que estava cheio de júbilo e até tinha se curado do ranger de dentes. Entretanto, continua roubando na balança e no troco.
Certamente lembram do telhado daquele templo que desabou e levou muitos desta para melhor. Não, não foi castigo. O culto havia acabado de terminar, portanto, não havia tempo para pecados que justificassem um castigo desse tamanho. E os cupins são insetos. Insetos ateus! E com os ateus precisamos usar a inteligência, meus irmãos, não a fé. Irmãos, a fé não remove excesso de peso nem madeira podre. A fé não altera a lei da gravidade.
A fé pode até remover montanhas, mas não remove cupins. Como ter fé num lugar onde há falta de manutenção? Outro dia vi um carro caindo aos pedaços com um adesivo desses clássicos: “Jesus é o Caminho”. Percebem o contrasenso?
Muitos “escritos sagrados”, só foram passados pro papel depois de séculos de tradição oral. Vejam, em Apocalipse 7:1, onde João diz: “vi os quatro anjos em pé, nos quatro cantos da terra...” Obviamente que para João a terra era plana, quadrada e pequena, pois viu os 4 anjos no mesmo vislumbre. E João viu também bestas, dragões, muito fogo e anjos tocando trombetas.
Se alguém viesse aqui hoje com uma história dessas, a primeira coisa que eu faria era pedir um teste de bafômetro e um exame toxicológico. Esses apocalípticos são engraçados, sempre estão torcendo para que o mundo acabe quanto antes, já notaram? Veem sinais do fim dos tempos em tudo, guerras, vulcões, terremotos, pestes, inundações, enfim.
A história do Gênese me custou caro junto à cúria. É que mais parece uma história de ninar. Com apenas oito anos de idade, Alisson perguntou à sra Mônica, a professora de catequese da nossa paróquia: “... fessora, o casal de cachorrinhos que Noé colocou na Arca era de qual raça: poodle, rottweiler, pinscher, linguiça, dálmata ou vira-lata?” Se o homem desenvolveu centenas de raças de cachorros em poucos milênios, o que a natureza não fez em centenas de milhões de anos? Percebem o drama que é explicar a riqueza da diversidade, pela fé?
Aliás, se a resposta correta fosse o cachorro linguiça, muita gente consideraria que foi um erro de projeto. A sra Mônica não soube responder. Procurou minha ajuda. Eu sabia que essa história do Dilúvio e da Arca era um plágio da Epopeia de Gilgamesh escrita na pedra 18 séculos antes que os textos do Antigo Testamento.
Bem, voltemos ao Gênese, não é por má fé, não, mas a Arca de Noé não tinha condições. Com mais de 280 espécies de dinossauros já catalogados, sinceramente!
E as águas cobrindo todas as montanhas da terra? Ora, o Everest tem quase 9 km de altura e sem aquela erosão toda naquela época devia ter 10 vezes mais. Vale o trocadilho: “tanta água assim, não tem cabimento!”
A pergunta do Alisson coloca a história da Arca de Noé por água abaixo. Para encurtar, dona Mônica me dedurou e eu tive que fazer um relatório para a arquidiocese, que o repassou ao CNBB, que lavou as mãos, que encaminhou ao papa, que é o único mortal com linha direta com o Criador para tratar das coisas que “só Deus sabe”.
Bento XVI recebeu a dúvida do Alisson no mesmo dia em que andou criticando os muçulmanos, e desandou a falar em várias línguas (simultaneamente!). O papa mandou aplicar ao Alisson 200 pais-nossos de penitência. Não achando justo, eu abaixei a pena para 50, em ritmo ligeiro. Não é que novamente fui dedurado pela dona Mônica?!
Um biólogo famoso, após um erro que cometera quando criança, foi chamado pela mãe que lhe disse: “Filho, não existe pecado, existem apenas coisas adequadas ou inadequadas, oportunas ou inoportunas.”
Eis uma versão interessante para o pecado e para o livre-arbítrio. Sua mãe transferia para ele a responsabilidade pelos seus atos, sem prêmios celestiais ou castigos infernais.
Nestes momentos de crise, em que os pecados capitais estão sob revisão, gostaria de falar sobre o conceito de pecado no mundo atual.
Hoje, ser pobre, gordo, não entender de informática, ser velho, desempregado, não passar no vestibular, ser paranista... é pecado. Não ter um bumbum bonito também é pecado e o silicone é uma benção! Aliás, ser feio também é um grande pecado.
Mas, inegavelmente, o pior dos pecados capitais modernos é ser feio e sem capital. O Monsenhor Bernabeu contava a história de um senhor, muito feio, que esperava o nascimento de seu primeiro filho. O menino nascera parecido com o pai, exceto pelas orelhas, que eram ainda maiores. Ele disse para a mulher: “Que coisa bonitinha nosso bebê, amor!”. Mas a mulher, traumatizada depois de ver a criança, começou a chorar e a berrar. Então ele a consolou: “Desculpa amor, eu só estava brincando...”
Cuidado, irmãos, rir da desgraça alheia também é pecado!
A preguiça é um dos maiores pecados capitais. A Bíblia registra nada menos que 57 passagens sobre a preguiça. E deixaram de incluir outras duzentas. Adivinhem por quê? Pura preguiça! Vejamos esta famosa passagem do Êxodo: “Depois de 40 dias de jejum, Moisés descia o Monte Sinai exausto, carregando as Tábuas da Lei, que eram de pedra. A multidão o esperava dançando em volta do Bezerro de Ouro. Faltando 70 metros de descida, Moisés sentou para tomar fôlego e aguardou o intervalo musical. E eis então que gritou: Será que ninguém vai me ajudar com estas pedras?”
Moisês ficou tão bravo que quebrou as pedras e ordenou a matança dos mais festeiros. Foram sacrificados 3 mil num só dia! Depois, chateado pelo ocorrido, Moisés reparou num pedaço de pedra ensanguentado, no chão. Uma tristeza profunda invadiu seu coração. A pedra ainda mostrava: “Não matarás!”
Garrincha, que Deus o tenha! (de preferência na ponta direita), não foi apenas um dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos, como um dos mais falsos da história. Garrincha era um perfeito mentiroso. Ele fazia que ia em frente, mas voltava; depois ameaçava ir pela esquerda e cortava pela direita!
E o hedonismo, que prega o prazer a qualquer custo? Vamos com calma, irmãos! É inteligente usar a liberdade para cair nas garras da dependência?
Muitos aspiram ao prazer individual total. Alguns aspiram e até injetam. Para mim, overdose é “realizar uma viagem longa demais para lugar nenhum.” Esta questão é delicada, mas temos que encarar. O crime organizado mata mais de 500 pessoas por ano em Curitiba. “Números oficiais”. Mata-se por menos de 10 reais! A questão para o usuário é: mocinho ou bandido? Ou depende da festinha?
Tenho sido um padre polêmico. Lembro de ter afirmado que Bush queria a união dos muçulmanos e por isso os juntava em Guantânamo. Pois também foi Bush quem reacendeu o grande sonho de todo fundamentalista: “antecipar o descanso eterno para aos inimigos!”. Mas será que não temos fundamentalistas na nossa igreja?
O caso da moça italiana que ficou em coma irreversível durante 17 anos comoveu todos nós. E trouxe à tona o tema da eutanásia. Parece que aqui os papéis da ciência e da igreja se inverteram. A igreja do lado dos equipamentos médicos e os médicos libertando o espírito desta jovem, acorrentado por tanto tempo.
Imaginem um médico confortando um paciente terminal, com fortes dores: “Chorai e gemei neste vale de lágrimas, porque vosso será o reino dos céus”. Acho que ele seria processado por falta de ética e negligência.
E quando a ciência se mete na religião? Einstein disse: “Deus não joga dados.” O que é que entendia Einstein sobre os passatempos de Deus?
Um arcebispo opinava sobre células-tronco apesar de entender disso menos que uma lagartixa! Vejam bem, não é brincadeira de mau gosto, as salamandras regeneram membros completos, braços, pernas, rabo. E sozinhas!
Minhas últimas noites têm sido de insônia e de muita reflexão. Passei a perceber que como qualquer católico sou obrigado a aceitar as regras da igreja nos casos em que fé e conhecimento conflitam. O papa discursou um dia contra o uso da camisinha na África! Agora voltou atrás. Ele entende de AIDS?
Se a razão e a revelação são métodos válidos por que então dão resultados diferentes? Numa sala há cientistas olhando os resultados de um experimento e dizendo: “já temos os fatos, agora precisamos das respostas.” Na outra sala, religiosos mostrando livros sagrados, “temos a resposta, agora precisamos dos fatos”.
Sinto-me só nestas ponderações. Aprendi com a minha avó que a solidão é um mito. Ela era uma mulher muito espirituosa e, pouco antes de morrer, me disse no leito do hospital: “Meu neto, vou lhe revelar meu grande segredo: nós nunca estamos sós, sempre tem alguma coisa incomodando. Em poucos anos você vai chegar à terceira idade, Bartolo. Tente aproveitar cada momento. Descobri que só há uma coisa lamentável na terceira idade: não existe quarta!”
Quando comecei a rezar um pai-nosso, ela me interrompeu delicadamente: “não precisa rezar mais, com tudo que rezei nesta vida por que Deus iria me atender só agora que estou chegando ao fim?
Mas, avó, eu disse, a senhora fala como alguém que se converteu ao ateísmo!
Acertou, querido, e me sinto mais tolerante do que nunca. As pessoas que eu vi aqui nos últimos meses tentando aliviar nossa dor eram médicos, enfermeiras e os clowns da “Trupe da Saúde”. Cada um do seu jeito, eles não se importam com as crenças ou descrenças dos doentes, mas com sua melhoria. Alguns eram ateus, portanto incapazes de pilotar um avião contra um prédio, ou apedrejar um homem por trabalhar aos sábados, ou uma mulher por ser adúltera (quem sabe num daqueles sábados em que o marido andava trabalhando). Seria um ateu capaz de condenar alguém a arder no fogo eterno por discordar de suas opiniões? Por que é que só para as pessoas de fé que perguntar ofende, sendo que para o ateu é a coisa mais sensata a se fazer quando faltam evidências?
Ela faleceu um dia depois. Suas últimas palavras foram: “Estou vendo um túnel se aproximando. Daqui a pouco saberei o que há do outro lado. Qualquer coisa, eu ligo para vocês...”

(Tirando a batina)

Estou renunciando hoje ao meu sacerdócio. Dona Mônica vai ficar contente.
Felicidades e até sempre meus irmãos.

Fim


Texto extraído do livro “Penso, logo Complico”. Editora Livre Expressão, 2011.

(mais informações em: www.juanico.com.br ou juanico@juanico.com.br)



quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Como Vejo o Mundo - Albert Einstein


A mente humana é maravilhosa. O que mais impressiona é que, em época diversa e após gerações, certas ideias e pensamentos são tão atuais como se eles fossem, hoje, imaginados.
A exposição do ideário de grandes pensadores, tais como Einstein, grande legado à humanidade assim reconhecido, nos fornece uma conexão valiosa para a compreensão de coisas tão simples, mas invisíveis à grande "massa emburrecida", como ele próprio afirma.
Uma das inúmeras obras a ser, obrigatoriamente, lida antes de morrer, Como Vejo o Mundo mostra, através dos olhos de Einstein, como nosso lar poderia ser infinitamente melhor. De forma simples, concisa e brilhantemente colocada, aborda temas como Liberdade, Religião, Bem e o Mal, Cultura, Educação, Política ...
É um prazer incomensurável absorver cada palavra sua. A sensação é de que ele registrou cada pensamento, cada intenção e modo como nós, Livres Pensadores, vemos e sentimos o mundo. Ele escreveu com nossas falas.

Segue um pequeno trecho do livro. Espero que gostem.


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COMO VEJO O MUNDO

                                                             Albert Einstein


"Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro por que estou nesta terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência cotidiana, concreta e intuitiva, eu me descubro vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes às minhas.
E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida — corpo e alma — integralmente tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e não paro de receber. Mas depois experimento o sentimento satisfeito de minha solidão e quase demonstro má consciência ao exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e de espírito.
Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas. Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto então melhor meu sentimento de responsabilidade. Ele já não me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo.
Em compensação, foram ideais que suscitaram meus esforços e me permitiram viver. Chamam-se o bem, a beleza, a verdade. Se não me identifico com outras sensibilidades semelhantes à minha e se não me obstino incansavelmente em perseguir este ideal eternamente inacessível na arte e na ciência, a vida perde todo o sentido para mim. Ora, a humanidade se apaixona por finalidades irrisórias que têm por nome a riqueza, a glória, o luxo. Desde moço já as desprezava.
Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente.
[ ... ]
A violência fascina os seres moralmente mais fracos. Um tirano vence por seu gênio, mas seu sucessor será sempre um rematado canalha. Por esta razão, luto sem tréguas e apaixonadamente contra os sistemas dessa natureza, [ ... ]. Mas é a pessoa humana, livre, criadora e sensível que modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e de embrutecimento.
A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu desprezo este homem ... Não merece um cérebro humano, já que a medula espinhal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar desta ignomínia.
No entanto, creio profundamente na humanidade. Sei que este câncer de há muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político.
O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos se cegaram. Aureolada de temor, é a realidade secreta do mistério que constitui também a religião. Homens reconhecem então algo de impenetrável a suas inteligências, conhecem porém as manifestações desta ordem suprema e da Beleza inalterável. Homens se confessam limitados e seu espírito não pode apreender esta perfeição. E este conhecimento e esta confissão tomam o nome de religião. Deste modo, mas somente deste modo, soa profundamente religioso, bem como esses homens. Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer idéia de um ser que sobreviva à morte do corpo. Se semelhantes idéias germinam em um espírito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta.
Não me canso de contemplar o mistério da eternidade da vida. Tenho uma intuição da extraordinária construção do ser. Mesmo que o esforço para compreendê-lo fique sempre desproporcionado, vejo a Razão se manifestar na vida."
[ ... ]
Pouco importa em que lugar, em quinze dias, uma campanha da imprensa pode instigar uma população incapaz de julgamento a um tal grau de loucura, que os homens se prontificam a vestir a farda de soldado para matar e se deixarem matar. E seres maus realizam assim suas intenções desprezíveis. A dignidade da pessoa humana está irremediavelmente aviltada pela obrigação do serviço militar e nossa humanidade civilizada sofre hoje deste câncer. Por isso, os profetas, comentando este flagelo, não cessam de anunciar a queda iminente de nossa civilização. Não faço parte daqueles futurólogos do Apocalipse, porque creio em um futuro melhor e vou justificar minha esperança.
[ ... ]

RELIGIÃO E CIÊNCIA

Todas as ações e todas as imaginações humanas têm em vista satisfazer as necessidades dos homens e trazer lenitivo a suas dores. Recusar esta evidência é não compreender a vida do espírito e seu progresso. Porque experimentar e desejar constituem os impulsos primários do ser, antes mesmo de considerar a majestosa criação desejada. Sendo assim, que sentimentos e condicionamentos levaram os homens a pensamentos religiosos e os incitaram a crer, no sentido mais forte da palavra? Descubro logo que as raízes da idéia e da experiência religiosa se revelam múltiplas. No primitivo, por exemplo, o temor suscita representações religiosas para atenuar a angústia da fome, o medo das feras, das doenças e da morte. Neste momento da história da vida, a compreensão das relações causais mostra-se limitada e o espírito humano tem de inventar seres mais ou menos à sua imagem. Transfere para a vontade e o poder deles as experiências dolorosas e trágicas de seu destino. Acredita mesmo poder obter sentimentos propícios desses seres pela realização de ritos ou de sacrifícios. Porque a memória das gerações passadas lhe faz crer no poder propiciatório do rito para alcançar as boas graças de seres que ele próprio criou.
A religião é vivida antes de tudo como angústia. Não é inventada, mas essencialmente estruturada pela casta sacerdotal, que institui o papel de intermediário entre seres temíveis e o povo, fundando assim sua hegemonia. Com frequência o chefe, o monarca ou uma classe privilegiada, de acordo com os elementos de seu poder e para salvaguardar a soberania temporal, se arrogam as funções sacerdotais. Ou então, entre a casta política dominante e a casta sacerdotal se estabelece uma comunidade de interesses. Os sentimentos sociais constituem a segunda causa dos. fantasmas religiosos. Porque o pai, a mãe ou o chefe de imensos grupos humanos, todos enfim, são falíveis e mortais. Então a paixão do poder, do amor e da forma impele a imaginar um conceito moral ou social de Deus. Deus- Providência, ele preside ao destino, socorre, recompensa e castiga. Segundo a imaginação humana, esse Deus-Providência ama e favorece a tribo, a humanidade, a vida, consola na adversidade e no malogro, protege a alma dos mortos. É este o sentido da religião vivida de acordo com o conceito social ou moral de Deus. [ ... ]
[ ... ]
A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.
[ ... ]
Poucos seres são capazes de dar bem claramente uma opinião diferente dos preconceitos de seu meio. A maioria é mesmo incapaz de chegar a formular tais opiniões.
[ ... ]
A maioria dos imbecis permanece invencível e satisfeita em qualquer circunstância. O terror provocado por sua tirania se dissipa simplesmente por sua distração e por sua inconsequência.
[ ... ]

* Grifos e supressões nossas.

Como Vejo o Mundo - Albert Einstein - Tradução de H. P. de Andrade

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O ANTICRISTO - Friedrich Wilhelm Nietzsche


Para a maioria das pessoas posso parecer um louco, um desvairado, um revoltado contra as regras deste imundo sistema a serem seguidas. Regras estas impostas de forma sanguinária e criminosa sobre a nossa sociedade. Também entendo ser esta uma luta quase solitária, pois a religião, esta praga, está encravada no seio da formação societária através dos séculos, está enraizada profundamente sendo quase impossível desenterrá-la para que, esta, seque e morra. A Igreja moldou nossa história a ferro e fogo e, hoje, sentimos ainda o peso de seus dogmas em nossas vidas.
Para quem está me entendendo, cito abaixo alguns trechos do livro de Friedrich Nietzsche "O Anticristo", um dos livros mais sensatos que tive o prazer em ler e compreender. Sem dúvida alguma, Nietzsche foi um dos maiores filósofos e psicólogos de todos os tempos.

Boa leitura!


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O ANTICRISTO

                                                   Friedrich Nietzsche



PREFÁCIO

Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se encontrem entre aqueles que compreendem o meu “Zaratustra”: como eu poderia misturar-me àqueles aos quais se presta ouvidos atualmente? – Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos.
As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido – conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...
Muito bem! Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados: que importância tem o resto? – O resto é somente a humanidade. – É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma – em desprezo...


I

– Olhemos-nos face a face. Somos hiperbóreos(1) – sabemos muito bem quão remota é nossa morada. “Nem por terra nem por mar encontrarás o caminho aos hiperbóreos”: mesmo Píndaro, em seus dias, sabia tanto sobre nós. Além do Norte, além do gelo, além da morte – nossa vida, nossa felicidade... Nós descobrimos essa felicidade; nós conhecemos o caminho; retiramos essa sabedoria dos milhares de anos no labirinto. Quem mais a descobriu? – O homem moderno? – “Eu não conheço nem a saída nem a entrada; sou tudo aquilo que não sabe nem sair nem entrar” – assim suspira o homem moderno... Esse é o tipo de modernidade que nos adoeceu – a paz indolente, o compromisso covarde, toda a virtuosa sujidade do moderno Sim e Não. Essa tolerância e largeur(2) de coração que tudo “perdoa” porque tudo “compreende” é um siroco(3) para nós. Antes viver no meio do gelo que entre virtudes modernas e outros ventos do sul!... Fomos bastante corajosos; não poupamos a nós mesmos nem os outros; mas levamos um longo tempo para descobrir aonde direcionar nossa coragem. Tornamo-nos tristes; nos chamaram de fatalistas. Nosso destino – ele era a plenitude, a tensão, o acumular de forças. Tínhamos sede de relâmpagos e grandes feitos; mantivemo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos, da “resignação”... Nosso ar era tempestuoso; nossa própria natureza tornou-se sombria – pois ainda não havíamos encontrado o caminho. A fórmula de nossa felicidade: um Sim, um Não, uma linha reta, uma meta...


II

O que é bom?Tudo que aumenta, no homem, a sensação de poder, a vontade de poder, o próprio poder.

O que é mau? Tudo que se origina da fraqueza.

O que é felicidade?A sensação de que o poder aumenta – de que uma resistência foi superada.

Não o contentamento, mas mais poder; não a paz a qualquer custo, mas a guerra; não a virtude, mas a eficiência (virtude no sentido da Renascença, virtu(4), virtude desvinculada de moralismos).
Os fracos e os malogrados devem perecer: primeiro princípio de nossa caridade. E realmente deve-se ajudá-los nisso.
O que é mais nocivo que qualquer vício? – A compaixão posta em prática em nome dos malogrados e dos fracos – O CRISTIANISMO...

1 – Os Gregos acreditavam que no extremo Norte da Terra vivia um povo que gozava de felicidade eterna, os hiperbóreos, que nunca guerreavam, adoeciam ou envelheciam. Sem a ajuda dos Deuses, seu território era inalcançável. (N. do T.)
2 – Grandeza.
3 – Vento asfixiante, quente e empoeirado originário de desertos. (N. do T.)
4 – “Vir”, em latim, significa “varão”, “homem”. Ou seja, “virtu”, neste “sentido da Renascença”, designa qualidades viris como força, bravura, vigor, coragem, e não humildade, compaixão, etc. (N. do T.)


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LEI CONTRA O CRISTIANISMO

Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário).
Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo.

Artigo Primeiro – Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia.

Artigo Segundo – Qualquer tipo de colaboração a um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais ríspidos com protestantes que com católicos, e mais ríspidos com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão. Consequentemente, o maior dos criminosos é filósofo.

Artigo Terceiro – O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas.

Artigo Quarto – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida.

Artigo Quinto – Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala – ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá-lo-emos em qualquer espécie de deserto.

Artigo Sexto – A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita; as palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.

Artigo Sétimo – O resto nasce a partir daqui.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Deus não é GRANDE - Como a religião envenena tudo


Deus não é Grande. Christopher Hitchens. Um garoto e uma professora. Ele, estudioso da Bíblia, nove anos, horrorizado com as declarações dela: “Deus foi generoso porque fez as árvores e gramas verdes em vez de roxas e laranjas”. Foi o início da jornada do jovem Christopher, hoje jornalista famoso e polêmico, para desvendar um dos maiores mitos dos últimos milênios: a Religião.
Fundamentado em seus questionamentos, críticas, vivências e pesquisas, racionalmente concluiu : “A Religião Envenena Tudo”. Suas afirmações dissecam os alicerces da crença monoteísta, desmitificando sua origem, seus mitos, suas lendas, seus personagens. Desde o início do livro, suas palavras causam impacto. “A religião é fraude mental e mal moral. A religião mata”. E sustenta sua tese, anulando os pilares da religião: a Bíblia e seus protagonistas: Deus, o filho de Deus e seus profetas.
A religião fala de uma bem-aventurança pós-morte, mas usurpa o poder neste mundo. E mata! Guerras, conflitos e crueldades são citados e descritos. Nomes são cunhados - sempre no comando da destruição do ser humano: EM NOME DE DEUS! A partir daí, cada sub-tema tem seu destaque. Com certa ironia, faz uma digressão sobre os alimentos proibidos que ajudam a distorcer a visão de mundo de suas “ovelhas” (fiéis). “O céu odeia presunto!” O prejuízo à nossa saúde está caracterizado pela oposição aberta de papas, padres, irmãs, pastores, mestres e fiéis contra cientistas inspirados e iluminados. Por exemplo, indo contra à aplicação de vacinas - hoje se imunizam pessoas; contra o uso de preservativos (contribuindo para a disseminação da AIDS).
Num paradoxo absurdo, religiões permitem que uma mulher seja sentenciada e estuprada por um bando, para espiar um crime de seu irmão. Desígnio de Deus? Também há ordem divina para molestar crianças indefesas, circuncidar meninos, fazer oblação dos lábios e clitóris de meninas, num afronta à dignidade do ser humano? Sexo é pecado! Desígnio de Deus?! E, no entanto, afirmam que Deus projetou o homem (perfeito) com sexo, mas, ao mesmo tempo, impingiu-lhe o pecado original. Paradoxo ridículo!
As alegações metafísicas da religião pintaram o quadro impressionista mais excêntrico que um talentoso pintor poderia criar. Tudo negro, limbo - teoria doentia, dor, sofrimento, martírio, tortura e morte - marcas da Inquisição, durante séculos. Enquanto isso, teólogos discutiam o comprimento das asas dos anjos! Mais um paradoxo no cerne da religião. Os três grandes monoteísmos hipnotizam os “mamíferos”, fazendo com que se consideram seres abjectos, ajoelhados, temendo e tremendo diante de um deus raivoso, com mãos sujas de sangue dos sacrifícios humanos. E justificam: “a vida em si é algo pobre”. Acrescentam eles: a astrologia dá esperanças! O universo conspira para realizar o desejo de seus “filhos”!
Estupidez e egoísmo, prepotência e falsa amizade instruem mentes. Não é em vão que a teoria de um projetista, tão compenetradamente afirmada por ela, dilui-se diante de um deus raivoso e ciumento, fazendo da Terra, “um projeto penal e um manicômio”. Como se defender? Como argumentar? A religião odeia a razão! Citando Lutero: “A razão é a meretriz do diabo, que nada faz a não ser difamar tudo o que Deus diz e faz!” Mas eles dizem que têm razão!
Uma conversa com Darwin esmaga os argumentos religiosos sobre a origem do homem. Criacionismo versus Evolução. E surge o primeiro problema: inventar Deus. Fatos inusitados aguçam alguns “raciocínios”. Por que Deus se manifestou tão poucas vezes a indivíduos analfabetos e semi-históricos em épocas sem informação? Por que o imperador Constantino - talvez 300 anos depois - instituiu a religião, baseada em “plágios de plágios, de um ouvir dizer de um ouvir dizer...?” Sem esquecer a falsificação de documentos, queima de outros, e sem prova de qualquer acontecimento! Por que pecados dos pais são lançados sobre os filhos? Por que Deus ainda instrui seus seguidores em como comprar ou vender escravos, comprar e vender suas filhas? E temos ainda o “olho por olho, dente por dente... não deixarás viver as feiticeiras - mulheres torturadas, morte na fogueira... durante séculos! E a preferência de Deus por virgens?!
E assim se sucederam, e se sucedem, os sacrifícios humanos. Abuso infantil. Quantos traumas causados pela fé em mentes indefesas! É terrorismo moral, manipulação indevida, crueldade. Bilhões de dólares são gastos pela igreja em processos de pedofilia. Como que por magia, abracadabra!, e foi criado o inferno! “Não creias em mim e serás condenado ao inferno” disse Jesus. Punição eterna! Dante escreveu a Divina Comédia - com as descrições das punições eternas, e na arte.
Pois, no dia-a-dia, os religiosos, em posição servil, pedem perdão. MEDO! Descrevem tão bem o inferno, mas não têm a lucidez de descrever o paraíso! Não, a religião não torna o homem bom, pois a fé é cega, segundo seus ...“líderes?” É uma aventura decifrar nosso universo, com seus mistérios e grandiosidades, excentricidades e enigmas, livre da pecha de pecadores, conscientes do valor da vida aqui e agora. É essencial a liberdade, que pressupõe a razão, o conhecimento científico. “É necessário conhecer o inimigo”.




Disponível em: < http://pt.shvoong.com/books/1777032-deus-n%C3%A3o-%C3%A9-grande/ > Acesso em 17 junho 2011.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Deus - Um Delírio


"Num tempo de guerras e ataques terroristas com motivações religiosas, o movimento pró-ateísmo ganha força no mundo todo. E seu líder é o respeitado biólogo Richard Dawkins, eleito recentemente um dos três intelectuais mais importantes do mundo (junto com Umberto Eco e Noam Chomsky) pela revista inglesa Prospect.
Autor de vários clássicos nas áreas de ciência e filosofia, ele sempre atestou a irracionalidade de acreditar em Deus, e os terríveis danos que a crença já causou à sociedade. Em “Deus, um delírio” seu intelecto afiado se concentra exclusivamente no assunto e mostra como a religião alimenta a guerra, fomenta o fanatismo e doutrina as crianças. O objetivo deste texto mordaz é provocar; provocar os religiosos convictos, mas principalmente provocar os que são religiosos “por inércia”, levando-os a pensar racionalmente e trocar sua “crença” pelo “orgulho ateu” e pela ciência.
Dawkins despreza a idéia de que a religião mereça respeito especial, mesmo se moderada, e compara a educação religiosa de crianças ao abuso infantil. Para ele, falar de “criança católica” ou “criança muçulmana” é como falar de “criança neoliberal” - não faz sentido. O biólogo usa seu conceito de memes (idéias que agem como os genes) e o darwinismo para propor explicações à tendência da humanidade de acreditar num ser superior. E desmonta um a um, com base na teoria das probabilidades, os argumentos que defendem a existência de Deus (ou Alá, ou qualquer tipo de ente sobrenatural), dedicando especial atenção ao “design inteligente”, tentativa criacionista de harmonizar ciência e religião. Mas, se é agressivo para expressar sua indignação com o que considera um dos males mais preocupantes da atualidade, Dawkins refuta o negativismo. Ser ateu não é incompatível com bons princípios morais e com a apreciação da beleza do mundo. A própria palavra “Deus” ganha o seu aval na ressalva do “Deus einsteiniano”, e o maravilhamento com o universo e com a vida, já manifestado em seus outros livros, encerra a argumentação numa nota de otimismo e esperança."

Um ótimo livro que nos ajuda a retirar o “véu que nos embaça a visão”.

Direção Perigosa? Acalme-se.