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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Improbabilidade de Deus



O artigo seguinte foi retirado da revista Free Inquiry, Volume 18, Número 3.
Escrito por Richard Dawkins

Tradução: Marcos Joel


Muito do que as pessoas fazem é em nome de Deus. Os irlandeses mandam-se uns aos outros pelo ar em nome de Deus. Os árabes mandam-se a si próprios pelo ar em nome de Deus. Os imãs e os aiatolás oprimem as mulheres em nome de Deus. Os papas e os padres celibatários destroçam a vida sexual das pessoas em nome de Deus. Os shohets(1) judeus cortam a garganta de animais vivos em nome de Deus. As proezas da religião no passado ― cruzadas sangrentas, inquisições que praticavam a tortura, conquistadores que assassinavam em massa, missionários que destruiam culturas, resistência reforçada legalmente e até ao último momento possível a cada nova verdade científica ― são ainda mais impressionantes. E tudo isto para quê? Creio que se torna cada vez mais claro que a resposta é absolutamente para nada. Não há nenhuma razão para que acreditemos que existam quaisquer espécies de deuses e há muitas boas razões para que acreditemos que não existem e nunca existiram. Foi tudo um gigantesco desperdício de tempo e de vida. Seria uma anedota de proporções cósmicas se não fosse tão trágico.
Porque é que as pessoas acreditam em Deus? Para a maior parte das pessoas a resposta é ainda uma qualquer versão do antigo Argumento do Desígnio(2). Olhamos em volta para a beleza e complexidade do mundo ― para o movimento aerodinâmico de uma asa de andorinha, para a delicadeza das flores e das borboletas que as fertilizam; através de um microscópio para a vida fervilhante em cada gota d'água de uma lagoa; através de um telescópio para a copa de uma sequóia gigante. Refletimos na complexidade eletrônica e na perfeição óptica dos nossos olhos que vêem tudo isto. Se temos alguma imaginação, estas coisas leva-nos a um sentimento de temor e reverência. Além disso, não podemos deixar de nos impressionar com a semelhança óbvia dos órgãos vivos com os projetos cuidadosamente planeados dos engenheiros humanos. A expressão mais famosa deste argumento é a analogia do relojoeiro de William Paley, padre do século XVII. Mesmo que não soubéssemos o que é um relógio, o caráter obviamente concebido dos seus dentes e molas e de como engrenam uns nos outros para um propósito, forçar-nos-ia a concluir "que o relógio teve de ter um autor: que teve de ter existido, nalguma altura, num lugar ou noutro, um artífice ou artífices, que o concebeu com o propósito a que o vemos agora responder; que compreendeu a sua construção e concebeu o seu uso." Se isto é verdade pare um relógio relativamente simples, não é muito mais verdade do olho, do ouvido, do rim, da articulação do cotovelo e do cérebro? Estas belas, complexas e intrincadas estruturas, que foram evidentemente construídas com um propósito, tiveram de ter o seu próprio autor, o seu próprio relojoeiro ― Deus.
Tal é o argumento de Paley, e é um argumento que praticamente todas as pessoas que refletem e têm sensibilidade descobrem por elas próprias em certa altura da sua infância. Durante a maior parte da história deve ter parecido absolutamente convincente e de uma verdade auto-evidente. E contudo, como resultado de uma das mais espantosas revoluções intelectuais da história, sabemos agora que é errado ou pelo menos supérfluo. Sabemos que a ordem e a aparente intencionalidade do mundo vivo aconteceu por intermédio de um processo completamente diferente, um processo que funciona sem a necessidade de qualquer autor e que é uma consequência de leis físicas basicamente muito simples. Este é o processo de evolução por seleção natural, descoberto por Charles Darwin e, independentemente, por Alfred Russel Wallace.
O que têm em comum todos os objetos que parecem ter tido um mesmo autor? A resposta é improbabilidade estatística. Se encontramos um seixo transparente a que o mar deu a forma de uma lente imperfeita, não concluímos que teve de ser concebido por um oculista: as leis da física por si sós são capazes de alcançar este resultado; não é muito improvável que tenha meramente "acontecido". Mas se encontramos uma lente composta trabalhada, cuidadosamente corrigida contra a aberração esférica e cromática, revestida contra o brilho e com "Carl Zeiss"(3) gravado no rebordo, sabemos que não poderia ter acontecido meramente por acaso. Se pegarmos todos os átomos de uma tal lente composta e os lançarmos juntos ao acaso sob a impulsionante influência das leis comuns da física na natureza é "teoricamente" possível que, por puro acaso, os átomos se agrupem segundo o padrão da lente composta da Zeiss e até que os átomos ao redor da orla se agrupem de modo a que o nome Carl Zeiss seja gravado. Mas o número de outras formas segundo as quais os átomos poderiam, com idêntica probabilidade, ter-se agrupado é tão extremamente, imensamente, incomensuravelmente elevado, que podemos pôr completamente de lado a hipótese do acaso. Como explicação o acaso está fora de questão.
A propósito, este argumento não é circular. Pode parecer circular porque, depois da ocorrência, podemos dizer que qualquer organização particular de átomos é muito improvável. Como alguém já disse, quando uma bola cai num determinado pedaço de gramado em um campo de golfo, seria loucura exclamar: "De todos os bilhões de pedaços de gramado em que a bola poderia ter caído, caiu exatamente neste. Quão admiravelmente e miraculosamente improvável!" Claro que a falácia aqui é que a bola tinha de cair em algum lugar. Só podemos ficar admirados com a improbabilidade do acontecimento real se o determinarmos a priori: por exemplo, se um homem de olhos vendados girasse sobre si no tee(4) e acertasse na bola ao acaso conseguindo um hole in one(5). Isso seria verdadeiramente espantoso, porque o futuro da bola tinha sido estabelecido previamente.
De todas as trilhões de formas diferentes de juntar os átomos de um telescópio, apenas uma minoria poderia na realidade funcionar de forma útil. Apenas uma pequena minoria teria Carl Zeiss gravado ou, na verdade, quaisquer palavras reconhecíveis de qualquer linguagem humana. O mesmo é verdade para as partes de um relógio: de todos os bilhões de modos possíveis de os juntar, apenas uma pequena minoria dirão as horas ou farão qualquer coisa útil. E, claro, o mesmo é verdade, a fortiori(6), para as partes dos corpos vivos. De todos os trilhões de trilhões de modos de juntar as partes de um corpo, apenas uma minoria infinitesimal viverão, procurarão comida, comerão e se reproduzirão. É verdade que há muitas formas diferentes de estar vivo ― pelo menos dez milhões de formas diferentes, se contarmos o número de espécies diferentes que estão atualmente vivas ― mas, por mais formas de estar vivo que possam existir, de certeza que há muito mais de estar morto!
Podemos com segurança concluir que os corpos vivos são bilhões de vezes muito complicados ― muitíssimo estatisticamente improváveis ― para terem surgido por puro acaso. Como é que surgiram, então? A resposta é que o acaso entra na história, mas não um único e exclusivo ato de acaso. Em vez disso, toda uma série de pequenos passos ocasionais, cada um suficientemente pequeno para ser um resultado credível do seu predecessor, ocorreram uns atrás dos outros em sequência. Estes pequenos passos do acaso são causados por mutações genéticas, mudanças fortuitas ― erros de fato ― no material genético. Originam mudanças na estrutura corporal existente. A maior parte dessas mudanças são perniciosas e levam à morte. Uma minoria revelam-se pequenas melhorias, que conduzem a um aumento da sobrevivência e da reprodução. Por este processo de seleção natural, as mudanças ao acaso que se revelam no fim de contas benéficas espalham-se pela espécie e tornam-se a norma. O cenário está agora montado para a próxima pequena mudança no processo evolutivo. Depois de, digamos, um milhar destas pequenas mudanças em série, cada mudança fornecendo a base para a próxima, o resultado final tornou-se, por um processo de acumulação, demasiado complexo para ter surgido num único ato de acaso.
Por exemplo, é teoricamente possível que um olho se forme do nada, num único passo de acaso: digamos que a partir da pele nua. É teoricamente possível no sentido em que poderíamos escrever uma receita com a forma de um grande número de mutações. Se todas estas mutações acontecessem simultaneamente, poderia mesmo surgir do nada um olho completo. Mas embora seja teoricamente possível, é na prática inconcebível. A quantidade de acaso que envolve é demasiada. A receita "correta" envolve mudanças num enorme número de genes simultaneamente. A receita correta é uma combinação particular de mudanças em trilhões de combinações de acasos igualmente prováveis. Podemos certamente excluir uma tal miraculosa coincidência. Mas isto é perfeitamente plausível que o olho moderno se tenha formado a partir de algo que fosse quase igual ao olho moderno mas não exatamente igual: um olho ligeiramente menos elaborado. Pelo mesmo argumento, este olho ligeiramente menos elaborado formou-se a partir de um ainda menos elaborado, etc. Se assumirmos um número suficientemente grande de pequenas diferenças entre cada estágio evolutivo e o seu predecessor, somos capazes de derivar um olho completo, complexo, a funcionar, a partir apenas da pele. Quantos estágios intermediários podemos registrar? Isso depende do tempo de que dispusermos. Houve tempo suficiente para os olhos evoluírem por pequenos passos a partir do nada?
Os fósseis dizem-nos que a vida evoluiu na Terra há mais de 3.000 milhões de anos. Para a mente humana é quase impossível apreender tal imensidão temporal. Nós, natural e felizmente, tendemos a ver a nossa própria expectativa de vida como razoavelmente longa, mas não podemos esperar viver nem sequer um século. Passaram 2.000 anos desde que Jesus viveu, tempo suficiente para desfocar a distinção entre história e mito. Podemos imaginar um milhão de períodos desses colocados lado a lado? Suponhamos que queremos escrever toda a história num longo e único livro. Se amontoássemos toda a história da Era Comum numa parte do livro, que tamanho teria a parte do livro da Era pré-Comum até ao começo da evolução? A resposta é que a parte do livro da Era pré-Comum estender-se-ia de Milão a Moscovo. Pensemos nas implicações disto para a quantidade de mudanças evolutivas que podem ser incluídas. Todos as raças de cães domésticos ― pequineses, poodles, spaniels, São Bernardos e chihuahuas ― provieram de lobos num espaço de tempo medido em centenas ou no máximo milhares de anos: não mais que dois metros ao longo da estrada de Milão para Moscovo. Pensemos na quantidade de mudança envolvida na passagem de lobo a pequinês; agora multipliquemos essa quantidade de mudança por um milhão. Quando olhamos para isto dessa maneira, torna-se fácil acreditar que um olho pode ter evoluído por pequenos passos a partir do nada.
É preciso ainda convencermo-nos de que cada um dos mediadores na rota da evolução, digamos da mera pele para um olho moderno, teria sido favorecido pela seleção natural; teria sido um progresso em relação ao seu predecessor na sequência ou pelo menos teria sobrevivido. Não serviria de nada provarmos a nós mesmos que existe teoricamente uma cadeia de mediadores quase perceptivelmente diferentes levando a um olho se muitos desses mediadores tivessem morrido. Afirma-se às vezes que as partes de um olho têm de estar todas reunidas ou o olho não funcionará. Metade de um olho, diz o argumento, não é melhor que nenhum olho. Não podemos voar com metade de uma asa; não podemos ouvir com metade de um ouvido. Portanto, não pode ter existido uma série de passos intermédios conduzindo ao olho, asa ou ouvido modernos.
Este tipo de argumento é tão ingênuo que podemos apenas perguntar-nos quais os motivos subconscientes para acreditar nele. É obviamente falso que meio olho seja inútil. As pessoas que sofrem de cataratas a quem removeram cirurgicamente os cristalinos não podem ver muito bem sem óculos, mas ainda assim estão muito melhor do que as pessoas que não têm quaisquer olhos. Sem o cristalino não é possível focar uma imagem detalhada, mas é possível evitar chocar com obstáculos e seria possível detectar a sombra vaga de um predador.
Quanto ao argumento segundo o qual não podemos voar com apenas metade de uma asa, é refutado por um grande número de animais planadores bem sucedidos, incluindo mamíferos de gêneros muito diferentes, lagartos, rãs, cobras e lulas. Muitos gêneros diferentes de animais que vivem nas árvores têm camadas de pele entre as suas articulações que são de fato asas fracionadas. Se você cair de uma árvore, qualquer pele extra ou alisamento do corpo que aumente a sua área de superfície pode salvar-lhe a vida. E, por muito pequenas ou grandes que as suas abas de pele possam ser, haverá sempre uma altura crítica tal que, se você cair de uma árvore dessa altura, a sua vida poderia ter sido salva por precisamente um pouco mais de área de superfície. Portanto, quando os nossos descendentes desenvolverem essa área de superfície extra, as suas vidas serão salvas precisamente por um pouco mais, mesmo que caiam de árvores de uma altura ligeiramente maior. E assim sucessivamente, por passos imperceptivelmente graduados até que, centenas de gerações depois, chegamos a asas completas.
Os olhos e as asas não podem surgir num passo único. Isso seria como ter a sorte quase infinita de acertar na combinação que abre a caixa-forte de um grande banco. Mas se girarmos os discos da fechadura ao acaso e, de cada vez que nos aproximarmos um pouco mais do número da sorte, a porta da caixa-forte rangendo abrir outra ranhura, em breve teremos a porta aberta! Na essência, é esse o segredo de como a evolução por seleção natural realiza o que pareceu impossível. Coisas que não podem plausivelmente ser derivadas de predecessores muito diferentes podem muito bem serem derivadas de predecessores apenas parecidos. Contanto que haja uma série suficientemente longa de predecessores ligeiramente diferentes, podemos derivar qualquer coisa de qualquer outra coisa.
Portanto, a evolução é teoricamente capaz de fazer o trabalho que antigamente parecia ser uma prerrogativa de Deus. Mas há alguma prova de que a evolução tenha de fato acontecido? A resposta é sim; a prova é esmagadora. Milhões de fósseis encontram-se nos lugares e à profundidade exata a que devemos esperar que estejam se a evolução aconteceu. Nem um único fóssil foi alguma vez encontrado num local em que a teoria da evolução não previsse que estivesse, embora isto pudesse ter acontecido com muita facilidade: um fóssil de um mamífero tão antigo que os peixes ainda não existissem, por exemplo, seria suficiente para refutar a teoria da evolução.
Os padrões de distribuição dos animais e das plantas pelos continentes e ilhas do mundo são exatamente os que seriam de esperar que fossem se eles tivessem evoluído de antepassados comuns a passos lentos e graduais. Os padrões de semelhança entre animais e plantas são exatamente o que esperaríamos se alguns fossem entre si primos próximos, e outros mais distantes. O fato do código genético ser o mesmo em todas as criaturas vivas sugere esmagadoramente que todas descendem de um único antepassado. As provas a favor da evolução são tão conclusivas que a única forma de salvar a teoria da criação é assumir que Deus deliberadamente colocou enormes quantidades de provas para fazer com que parecesse que a evolução ocorreu. Por outras palavras, os fósseis, a distribuição geográfica dos animais e tudo isso, são todos uma emorme anedota. Alguém quer adorar um Deus capaz de tal embuste? É certamente muito mais respeitoso, assim como mais sensato do ponto de vista científico, tomar as provas pelo seu valor facial. Todas as criaturas vivas são primas umas das outras, descendem de um antepassado remoto que viveu há mais do que 3.000 milhões de anos.
Por conseguinte, o Argumento do Desígnio foi destruído como razão para acreditar em Deus. Existem outros argumentos? Algumas pessoas acreditam em Deus por causa do que sentem ser uma revelação interior. Tais revelações nem sempre são edificantes mas para a pessoa em questão são sem dúvida sentidas como reais. Muitos habitantes de hospícios têm uma fé inabalável em que são Napoleão ou, na verdade, o próprio Deus. Não há dúvida do poder de tais convicções para quem acredita nelas, mas isto não é razão para que o resto de nós acredite. Na verdade, uma vez que essas crenças são mutuamente contraditórias, não podemos acreditar nelas.
É preciso dizer um pouco mais. A evolução por seleção natural explica muitas coisas, mas não poderia ter começado do nada. Não poderia ter começado sem que houvesse algum gênero de reprodução e de hereditariedade. A hereditariedade moderna baseia-se no código de DNA, que é ele mesmo demasiado complicado para ter surgido espontaneamente por um único ato do acaso. Isto parece significar que teve de existir algum sistema hereditário anterior, agora desaparecido, que era suficientemente simples para ter surgido por acaso e pelas leis da química e que forneceu o meio no qual uma forma primitiva de seleção natural cumulativa pôde começar. O DNA foi um produto posterior desta seleção primitiva e cumulativa. Antes deste gênero original de seleção natural, houve um período em que foram construídos compostos químicos complexos a partir de compostos químicos mais simples e antes desse um período em que os elementos químicos foram feitos a partir de elementos mais simples, seguindo leis físicas bem compreendidas. Antes disso, em última instância foi tudo construído de hidrogênio puro no imediato seguimento do big bang que iniciou o universo.
Há a tentação de defender que, embora Deus possa não ser necessário para explicar a evolução da ordem complexa uma vez que o universo, com as suas leis fundamentais da física, tenha começado, precisamos de um Deus para explicar a origem de todas as coisas. Esta ideia não deixa Deus com muito o que fazer: somente iniciar o big bang, e em seguida sentar-se e esperar que tudo aconteça. O físico-químico Peter Atkins, no seu livro maravilhosamente escrito, The Creation (A Criação), postula um Deus preguiçoso que se esforçou por fazer tão pouco quanto possível para iniciar tudo. Atkins explica como cada passo na história do universo seguiu, por simples lei física, o seu predecessor. Reduziu assim a quantidade de trabalho que o criador preguiçoso precisaria fazer e no fim de contas concluiu que de fato não precisaria fazer nada!
Os detalhes da fase inicial do universo pertencem ao reino da física e eu sou biólogo, mais interessado nas últimas fases da evolução em complexidade. Para mim, o ponto importante é que, mesmo se o físico precisa postular um mínimo irredutível que teve de estar presente no começo, para que o universo começasse, esse mínimo irredutível é certamente extremamente simples. Por definição, as explicações construídas sobre premissas simples são mais plausíveis e mais satisfatórias do que as explicações que têm de postular começos complexos e estatisticamente improváveis. E dificilmente poderemos encontrar algo mais complexo do que um Deus Todo-Poderoso!

Richard Dawkins é Professor em Oxford de Compreensão Pública da Ciência. É o autor de O Relojoeiro Cego (no qual este artigo se baseia em parte) e A Escalada do Monte Improvável. Ele é editor sênior do Free Inquiry.

Notas do tradutor:
1 – Shohet: rabino habilitado a abater animais segundo os rituais kasher.
2 - O argumento do desígnio é um dos argumentos mais usados pelos teístas para defender a existência de Deus. De acordo com este argumento, o modo regular, ordenado e complexo como o universo está organizado revelam o desígnio de um ser divino criador do universo.
3 - Carl Zeiss (Weimar, 11 de setembro de 1816 — Jena, 3 de dezembro de 1888) foi um inventor alemão na área da óptica.
4 - Um tee (T) é um suporte utilizado para suportar uma bola parada para que o jogador pode golpeá-lo, especialmente no golfe, tee ball, futebol americano e rugby. Refere-se também a área em que o artefato é colocado.
5 - Hole in one é a jogada na qual o golfista acerta a bola no buraco com apenas uma tacada.
6 - A fortiori é o início de uma expressão latina - a fortiori ratione - que significa "por causa de uma razão mais forte", ou seja, "com muito mais razão". Indica que uma conclusão deverá ser necessariamente aceite, já que ela é logicamente muito mais verdadeira que outra que já o foi anteriormente.

Disponível em: <http://www.secularhumanism.org/library/fi/dawkins_18_3.html> Acesso em 06 janeiro 2012.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Como Vejo o Mundo - Albert Einstein


A mente humana é maravilhosa. O que mais impressiona é que, em época diversa e após gerações, certas ideias e pensamentos são tão atuais como se eles fossem, hoje, imaginados.
A exposição do ideário de grandes pensadores, tais como Einstein, grande legado à humanidade assim reconhecido, nos fornece uma conexão valiosa para a compreensão de coisas tão simples, mas invisíveis à grande "massa emburrecida", como ele próprio afirma.
Uma das inúmeras obras a ser, obrigatoriamente, lida antes de morrer, Como Vejo o Mundo mostra, através dos olhos de Einstein, como nosso lar poderia ser infinitamente melhor. De forma simples, concisa e brilhantemente colocada, aborda temas como Liberdade, Religião, Bem e o Mal, Cultura, Educação, Política ...
É um prazer incomensurável absorver cada palavra sua. A sensação é de que ele registrou cada pensamento, cada intenção e modo como nós, Livres Pensadores, vemos e sentimos o mundo. Ele escreveu com nossas falas.

Segue um pequeno trecho do livro. Espero que gostem.


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COMO VEJO O MUNDO

                                                             Albert Einstein


"Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro por que estou nesta terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência cotidiana, concreta e intuitiva, eu me descubro vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes às minhas.
E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida — corpo e alma — integralmente tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e não paro de receber. Mas depois experimento o sentimento satisfeito de minha solidão e quase demonstro má consciência ao exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e de espírito.
Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas. Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto então melhor meu sentimento de responsabilidade. Ele já não me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo.
Em compensação, foram ideais que suscitaram meus esforços e me permitiram viver. Chamam-se o bem, a beleza, a verdade. Se não me identifico com outras sensibilidades semelhantes à minha e se não me obstino incansavelmente em perseguir este ideal eternamente inacessível na arte e na ciência, a vida perde todo o sentido para mim. Ora, a humanidade se apaixona por finalidades irrisórias que têm por nome a riqueza, a glória, o luxo. Desde moço já as desprezava.
Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente.
[ ... ]
A violência fascina os seres moralmente mais fracos. Um tirano vence por seu gênio, mas seu sucessor será sempre um rematado canalha. Por esta razão, luto sem tréguas e apaixonadamente contra os sistemas dessa natureza, [ ... ]. Mas é a pessoa humana, livre, criadora e sensível que modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e de embrutecimento.
A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu desprezo este homem ... Não merece um cérebro humano, já que a medula espinhal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar desta ignomínia.
No entanto, creio profundamente na humanidade. Sei que este câncer de há muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político.
O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos se cegaram. Aureolada de temor, é a realidade secreta do mistério que constitui também a religião. Homens reconhecem então algo de impenetrável a suas inteligências, conhecem porém as manifestações desta ordem suprema e da Beleza inalterável. Homens se confessam limitados e seu espírito não pode apreender esta perfeição. E este conhecimento e esta confissão tomam o nome de religião. Deste modo, mas somente deste modo, soa profundamente religioso, bem como esses homens. Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer idéia de um ser que sobreviva à morte do corpo. Se semelhantes idéias germinam em um espírito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta.
Não me canso de contemplar o mistério da eternidade da vida. Tenho uma intuição da extraordinária construção do ser. Mesmo que o esforço para compreendê-lo fique sempre desproporcionado, vejo a Razão se manifestar na vida."
[ ... ]
Pouco importa em que lugar, em quinze dias, uma campanha da imprensa pode instigar uma população incapaz de julgamento a um tal grau de loucura, que os homens se prontificam a vestir a farda de soldado para matar e se deixarem matar. E seres maus realizam assim suas intenções desprezíveis. A dignidade da pessoa humana está irremediavelmente aviltada pela obrigação do serviço militar e nossa humanidade civilizada sofre hoje deste câncer. Por isso, os profetas, comentando este flagelo, não cessam de anunciar a queda iminente de nossa civilização. Não faço parte daqueles futurólogos do Apocalipse, porque creio em um futuro melhor e vou justificar minha esperança.
[ ... ]

RELIGIÃO E CIÊNCIA

Todas as ações e todas as imaginações humanas têm em vista satisfazer as necessidades dos homens e trazer lenitivo a suas dores. Recusar esta evidência é não compreender a vida do espírito e seu progresso. Porque experimentar e desejar constituem os impulsos primários do ser, antes mesmo de considerar a majestosa criação desejada. Sendo assim, que sentimentos e condicionamentos levaram os homens a pensamentos religiosos e os incitaram a crer, no sentido mais forte da palavra? Descubro logo que as raízes da idéia e da experiência religiosa se revelam múltiplas. No primitivo, por exemplo, o temor suscita representações religiosas para atenuar a angústia da fome, o medo das feras, das doenças e da morte. Neste momento da história da vida, a compreensão das relações causais mostra-se limitada e o espírito humano tem de inventar seres mais ou menos à sua imagem. Transfere para a vontade e o poder deles as experiências dolorosas e trágicas de seu destino. Acredita mesmo poder obter sentimentos propícios desses seres pela realização de ritos ou de sacrifícios. Porque a memória das gerações passadas lhe faz crer no poder propiciatório do rito para alcançar as boas graças de seres que ele próprio criou.
A religião é vivida antes de tudo como angústia. Não é inventada, mas essencialmente estruturada pela casta sacerdotal, que institui o papel de intermediário entre seres temíveis e o povo, fundando assim sua hegemonia. Com frequência o chefe, o monarca ou uma classe privilegiada, de acordo com os elementos de seu poder e para salvaguardar a soberania temporal, se arrogam as funções sacerdotais. Ou então, entre a casta política dominante e a casta sacerdotal se estabelece uma comunidade de interesses. Os sentimentos sociais constituem a segunda causa dos. fantasmas religiosos. Porque o pai, a mãe ou o chefe de imensos grupos humanos, todos enfim, são falíveis e mortais. Então a paixão do poder, do amor e da forma impele a imaginar um conceito moral ou social de Deus. Deus- Providência, ele preside ao destino, socorre, recompensa e castiga. Segundo a imaginação humana, esse Deus-Providência ama e favorece a tribo, a humanidade, a vida, consola na adversidade e no malogro, protege a alma dos mortos. É este o sentido da religião vivida de acordo com o conceito social ou moral de Deus. [ ... ]
[ ... ]
A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.
[ ... ]
Poucos seres são capazes de dar bem claramente uma opinião diferente dos preconceitos de seu meio. A maioria é mesmo incapaz de chegar a formular tais opiniões.
[ ... ]
A maioria dos imbecis permanece invencível e satisfeita em qualquer circunstância. O terror provocado por sua tirania se dissipa simplesmente por sua distração e por sua inconsequência.
[ ... ]

* Grifos e supressões nossas.

Como Vejo o Mundo - Albert Einstein - Tradução de H. P. de Andrade

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

DEZ MANDAMENTOS PARA ESCREVER COM ESTILO – Friedrich Wilhelm Nietzsche


1º – O que mais importa é a vida: o estilo deve viver.

2º – O estilo deve ser apropriado à sua pessoa, em função de uma pessoa determinada para a qual se deseja comunicar seu pensamento.

3º – Antes de começar a escrever, deve-se saber exatamente como expressar de viva voz aquilo que se tem para dizer. Escrever deve ser apenas uma imitação.

4º – O escritor está longe de possuir todos os meios do orador. Deve, portanto, inspirar-se numa forma de discurso muito expressiva. Seu reflexo escrito parecerá de todos os modos muito mais apagado que seu modelo.

5º – A riqueza da vida se traduz pela riqueza dos gestos. Há de se aprender a considerar tudo como um gesto: a extensão e a pausa das frases, a pontuação, a respiração e também a escolha das palavras e a sucessão dos argumentos.

6º – Cuidado com o período muito extenso. Somente aqueles que ao falar têm a respiração muito longa têm direito a ele. Para a maior parte, o período é tão-só uma presunção.

7º – O estilo deve mostrar que o escritor acredita em seus pensamentos, não apenas que os pensa, mas que os sente.

8º – Quanto mais abstrata for a verdade que se quer ensinar, mais importante é fazer convergir até ela todos os sentidos do leitor.

9º – O tato do bom prosador na escolha de seus meios consiste em se aproximar da poesia até quase tocá-la, mas sem ultrapassar jamais o limite que a separa da prosa.

10º – Não é sensato nem hábil privar o leitor de suas refutações mais fáceis; é muito sensato e hábil, ao contrário, deixar-lhe o cuidado de formular ele mesmo a última palavra de nossa sabedoria.


N. B.: Texto traduzido da versão em castelhano por Hélton Cenci.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 - 1900)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O ANTICRISTO - Friedrich Wilhelm Nietzsche


Para a maioria das pessoas posso parecer um louco, um desvairado, um revoltado contra as regras deste imundo sistema a serem seguidas. Regras estas impostas de forma sanguinária e criminosa sobre a nossa sociedade. Também entendo ser esta uma luta quase solitária, pois a religião, esta praga, está encravada no seio da formação societária através dos séculos, está enraizada profundamente sendo quase impossível desenterrá-la para que, esta, seque e morra. A Igreja moldou nossa história a ferro e fogo e, hoje, sentimos ainda o peso de seus dogmas em nossas vidas.
Para quem está me entendendo, cito abaixo alguns trechos do livro de Friedrich Nietzsche "O Anticristo", um dos livros mais sensatos que tive o prazer em ler e compreender. Sem dúvida alguma, Nietzsche foi um dos maiores filósofos e psicólogos de todos os tempos.

Boa leitura!


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O ANTICRISTO

                                                   Friedrich Nietzsche



PREFÁCIO

Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se encontrem entre aqueles que compreendem o meu “Zaratustra”: como eu poderia misturar-me àqueles aos quais se presta ouvidos atualmente? – Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos.
As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido – conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...
Muito bem! Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados: que importância tem o resto? – O resto é somente a humanidade. – É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma – em desprezo...


I

– Olhemos-nos face a face. Somos hiperbóreos(1) – sabemos muito bem quão remota é nossa morada. “Nem por terra nem por mar encontrarás o caminho aos hiperbóreos”: mesmo Píndaro, em seus dias, sabia tanto sobre nós. Além do Norte, além do gelo, além da morte – nossa vida, nossa felicidade... Nós descobrimos essa felicidade; nós conhecemos o caminho; retiramos essa sabedoria dos milhares de anos no labirinto. Quem mais a descobriu? – O homem moderno? – “Eu não conheço nem a saída nem a entrada; sou tudo aquilo que não sabe nem sair nem entrar” – assim suspira o homem moderno... Esse é o tipo de modernidade que nos adoeceu – a paz indolente, o compromisso covarde, toda a virtuosa sujidade do moderno Sim e Não. Essa tolerância e largeur(2) de coração que tudo “perdoa” porque tudo “compreende” é um siroco(3) para nós. Antes viver no meio do gelo que entre virtudes modernas e outros ventos do sul!... Fomos bastante corajosos; não poupamos a nós mesmos nem os outros; mas levamos um longo tempo para descobrir aonde direcionar nossa coragem. Tornamo-nos tristes; nos chamaram de fatalistas. Nosso destino – ele era a plenitude, a tensão, o acumular de forças. Tínhamos sede de relâmpagos e grandes feitos; mantivemo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos, da “resignação”... Nosso ar era tempestuoso; nossa própria natureza tornou-se sombria – pois ainda não havíamos encontrado o caminho. A fórmula de nossa felicidade: um Sim, um Não, uma linha reta, uma meta...


II

O que é bom?Tudo que aumenta, no homem, a sensação de poder, a vontade de poder, o próprio poder.

O que é mau? Tudo que se origina da fraqueza.

O que é felicidade?A sensação de que o poder aumenta – de que uma resistência foi superada.

Não o contentamento, mas mais poder; não a paz a qualquer custo, mas a guerra; não a virtude, mas a eficiência (virtude no sentido da Renascença, virtu(4), virtude desvinculada de moralismos).
Os fracos e os malogrados devem perecer: primeiro princípio de nossa caridade. E realmente deve-se ajudá-los nisso.
O que é mais nocivo que qualquer vício? – A compaixão posta em prática em nome dos malogrados e dos fracos – O CRISTIANISMO...

1 – Os Gregos acreditavam que no extremo Norte da Terra vivia um povo que gozava de felicidade eterna, os hiperbóreos, que nunca guerreavam, adoeciam ou envelheciam. Sem a ajuda dos Deuses, seu território era inalcançável. (N. do T.)
2 – Grandeza.
3 – Vento asfixiante, quente e empoeirado originário de desertos. (N. do T.)
4 – “Vir”, em latim, significa “varão”, “homem”. Ou seja, “virtu”, neste “sentido da Renascença”, designa qualidades viris como força, bravura, vigor, coragem, e não humildade, compaixão, etc. (N. do T.)


[ ... ]


LEI CONTRA O CRISTIANISMO

Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário).
Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo.

Artigo Primeiro – Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia.

Artigo Segundo – Qualquer tipo de colaboração a um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais ríspidos com protestantes que com católicos, e mais ríspidos com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão. Consequentemente, o maior dos criminosos é filósofo.

Artigo Terceiro – O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas.

Artigo Quarto – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida.

Artigo Quinto – Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala – ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá-lo-emos em qualquer espécie de deserto.

Artigo Sexto – A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita; as palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.

Artigo Sétimo – O resto nasce a partir daqui.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Um breve comentário sobre a história bíblica de Jó

                                                                         
                                                                                                         
                                                                                 Por Marcos Joel
 


Caros Livres Pensadores

A regra em escrever um texto ou artigo deve ser, sem sombra de dúvida, redigido em terceira pessoa. Mas vou fugir a norma para poder mostrar a posição que tomo e defender o que penso. Então, segue-se assim.

Sinto-me fraco e impotente. Após a abertura deste blog, minha vida tem mudado muito. Ao assumir a postura de ATEU, a sociedade, a que faço parte, me condena de tal forma que, parece que estou agindo de modo criminoso por não aceitar algo que é imposto de forma coercitiva por esse grupo social. Vocês não sabem o tempo que levou para eu poder defender tal posição. Sabendo o que a sociedade espera, demorou muito até eu ter a coragem suficiente para enfrentar, de cara limpa, a saraivada de protestos pessoais que iriam atingir a minha pessoa. Hoje, parece que sou um "doente mental" ou que o Diabo está possuindo a minha mente, por não mais aceitar o que me é, diariamente, imposto como o "caminho correto", por questionar os entendimentos da Igreja. Meus conhecidos me perguntam: Por quê? Desde quando? O que me fez mudar de ideia e não mais crer na Palavra? Condenam a mim por não crer em mais nada. Enviam a mim pessoas "conhecedoras da Palavra de Deus" para me questionar, para me testar e perguntar o que eu acho sobre determinado assunto e, ao que respondo, infligem textos e mais textos bíblicos, ensinamentos do Senhor, sustentando que eu estou errado, que eu devo pensar melhor, que o Diabo está me testando. Mas, pergunto, por que vêm a mim se não aceitam o que penso?

O que me faz refletir é: por que os chamados "crentes" não conseguem suportar ver alguém que afirma que não crê mais em Deus em paz? Onde está o livre arbítrio das pessoas? Onde está o respeito? Onde está a sua liberdade? Por quê, obrigatoriamente, estes seres devem tentar, a qualquer custo, converter tudo e a todos? Alguém já viu algum ateu bater de porta em porta desmentindo as estórias, isto mesmo, estórias, contadas por seguidores dos mais diversos deuses e deusas existentes? Por acaso já foi visto algum ateu colocando outdooors em terrenos baldios com frases do tipo: "Não creiam em Deus, ele é uma farsa; A história da bíblia é um amontoado de fábulas; A Religião é uma praga." Não. Nunca foi visto e não o será.

A verdade é que nenhum crente suporta ver alguém que seja decidido, alguém que não tem medo de questionar, de perguntar o porquê. Se você questiona um crente, ele te rebate de forma bruta e ameaçadora, como se a nossa vida dependesse dessa resposta: Você então duvida da Palavra de Cristo, duvida do Filho de Deus? Isto é uma heresia! Infelizmente, ante a este tipo de pensamento e de pessoas cegas, não temos o direito, enquanto humanos, de O questionar.

Mas, então temos de aceitar tudo como nos é imposto? Perguntas surgem aos montes e as respostas estão ao nosso redor, é só as procurar. Questione-se:
  • Quem foi Cristo?
  • De onde vem a Religião?
  • Como foi escrito a Bíblia?
  • Quem escreveu a Bíblia?
  • Quem e o que influenciou a composição de seus personagens?
  • Por que a Igreja é contra tudo o que é sensato para a Ciência?
  • Por que a Religião prega a impotência pessoal?
  • Por que o ser humano precisa ser eterno?
  • De onde vem a ideia de céu e inferno, bem e mal, Deus e o Diabo?

Posso perguntar qualquer coisa e a história nos responderá.

Mas, a questão não é esta. O mérito é por que não posso ser livre para usufruir do próprio pensar. Por que estes insensatos crentes infernizam, por assim dizer, as nossas vidas, a dos ateus. Ateu nada mais é do que o fato de não mais crer em um ser sobrenatural, a não aceitação de um ente metafísico como criador e regulador de nossas vidas. Ser ATEU é negar um deus, seja ele qual for. E o que tem de errado nisto? Me perguntam se não tenho mais fé, mas, o que de fato é a fé? Nos conta a história que quem tem fé, tem fé em um ser sobrenatural, tais como: o sol, a chuva, o trovão, o mar, Chimichagua, Quetzalcóatl, Nãmandu, Jeová, Huitzilopochtli, Coyolxahuqui, Baal, Hare, Allah, Brahma, Mahayana, Shu, Tefnet, Osíris, Khnemu, Seket, Menfis, Amaterasu, Buda, Amon-Rá, Zeus, Júpiter, Posêidon, Tezcatlipoca, Xangô, Pachamama, Ull, Shiva, Nhanderuvuçu, Krishna, Ishtar, Jesus Cristo, Cihuacóatl, Cihuacóatl, Mictlantecuhtli, Kinich, Ahau, Pã, Wakan Tanka, Unkulunkulu, Vulcano, Buda, Maomé, Allah e segue-se algumas centenas de nomes que poderiam ser citados.

O certo é que o deus que rege o local onde você nasceu, rege também a sua vida. Se você nascesse no Brasil, provavelmente o seu deus seria o deus dos cristãos, ou seja, Deus ou Jeová. Se nascesse na Palestina, seus passos seriam guiados por Allah. Se na China ou Coréia, seu guia seria Buda. E fosse quaisquer deles, o seu deus seria o deus correto a ser seguido, os outros não existiriam e seriam renegados ao não reconhecimento da divindade e não teriam qualquer valor.

Entendo que fé é muito subjetivo. Posso ter fé, isto é, crer em algo, e ao mesmo tempo, ser um descrente. Afirmo que creio na Teoria da Evolução, Em Quasares, Buracos Negros, Teoria das Supercordas, Teoria dos Buracos de Minhoca, na finitude do nosso universo, na probabilidade de existir outros universos paralelos, na Teoria do Acaso, entre outras. Então tenho fé, pois creio em algo. Somente não creio no seu deus e, em relação a isto, sou descrente.

Mas a ideia inicial era falar um pouco sobre a parábola de Jó. Sabe-se que Jó é um personagem biblico do Antigo Testamento e que foi "tocado" pela mão do Diabo, ou seja, foi testado por ele, com a autorização de Deus, com o intuito de testar a sua fé em Seu Criador. Perdeu tudo e quase foi-lhe desprovido da vida, mas não profanou a seu Deus. Para se ambientar, cito a passagem da Bíblia na íntegra (Jó - Capítulo 1 - Versículo 1 a 22 e Capítulo 2 - Versículo 1 a 13):

"Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era este homem íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal.
E nasceram-lhe sete filhos e três filhas.
E o seu gado era de sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; eram também muitíssimos os servos a seu serviço, de maneira que este homem era maior do que todos os do oriente.
E iam seus filhos à casa uns dos outros e faziam banquetes cada um por sua vez; e mandavam convidar as suas três irmãs a comerem e beberem com eles.
Sucedia, pois, que, decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia Jó: Talvez pecaram meus filhos, e amaldiçoaram a Deus no seu coração. Assim fazia Jó continuamente.
E num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles.
Então o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao SENHOR, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.
E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal.
Então respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde?
Porventura tu não cercaste de sebe, a ele, e a sua casa, e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra.
Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face.
E disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do SENHOR.
E sucedeu um dia, em que seus filhos e suas filhas comiam, e bebiam vinho, na casa de seu irmão primogênito,
Que veio um mensageiro a Jó, e lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas pastavam junto a eles;
E deram sobre eles os sabeus, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada; e só eu escapei para trazer-te a nova.
Estando este ainda falando, veio outro e disse: Fogo de Deus caiu do céu, e queimou as ovelhas e os servos, e os consumiu, e só eu escapei para trazer-te a nova.
Estando ainda este falando, veio outro, e disse: Ordenando os caldeus três tropas, deram sobre os camelos, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada; e só eu escapei para trazer-te a nova.
Estando ainda este falando, veio outro, e disse: Estando teus filhos e tuas filhas comendo e bebendo vinho, em casa de seu irmão primogênito,
Eis que um grande vento sobreveio dalém do deserto, e deu nos quatro cantos da casa, que caiu sobre os jovens, e morreram; e só eu escapei para trazer-te a nova.
Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou.
E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu, e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR.
Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.
E, vindo outro dia, em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles, apresentar-se perante o SENHOR.
Então o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? E respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.
E disse o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal, e que ainda retém a sua sinceridade, havendo-me tu incitado contra ele, para o consumir sem causa.
Então Satanás respondeu ao SENHOR, e disse: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida.
Porém estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se não blasfema contra ti na tua face!
E disse o SENHOR a Satanás: Eis que ele está na tua mão; porém guarda a sua vida.
Então saiu Satanás da presença do SENHOR, e feriu a Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça.
E Jó tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza.
Então sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre.
Porém ele lhe disse: Como fala qualquer doida, falas tu; receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios.
Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo este mal que tinha vindo sobre ele, vieram cada um do seu lugar: Elifaz o temanita, e Bildade o suíta, e Zofar o naamatita; e combinaram condoer-se dele, para o consolarem.
E, levantando de longe os seus olhos, não o conheceram; e levantaram a sua voz e choraram, e rasgaram cada um o seu manto, e sobre as suas cabeças lançaram pó ao ar.
E assentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande."

Agora, raciocinem comigo: um Deus, tão bom, misericordioso e prudente faz um trato com o seu opositor, o Diabo, para provar que Jó, seu eterno seguidor, realmente é digno de sua fé e que não o trairá. Sinto vergonha de, um dia, já ter seguido tal deus. INSOLENTE, HIPÓCRITA, IMORAL, EGOÍSTA. Estes são alguns de seus atributos. Humano, demasiadamente humano nos mostra ser a face desse deus. Esta passagem nos mostra o quão desgraçado se faz quem detém o poder. Sei que você já sentiu a dor de perder alguém muito querido. Agora, perder esposa, filhos, seus bens, sua saúde e quase morrer por que o seu Criador anuiu o desejo de seu opositor, o Diabo, em fazer um teste com você? Não consigo imaginar alguém que ama sua esposa e filhos, os perder por que seu Ser Supremo assim o autorizou, como se tais pessoas fossem objetos facilmente substituíveis. Como pode alguém ser tão mau a ponto de permitir isso. Nós, como humanos, jamais permitiríamos isso, visto que em primazia zelamos pela vida acima de tudo e, posteriormente, pela dignidade do ser humano. Mas, onde há dignidade em tal atitude. Fez Ele que Jó perdesse tudo: esposa, filhos, empregados, animais, a saúde e tudo em nome de Sua soberba, de seu poder esmagador e egoísta. Deus simplesmente ceifou vidas que não diziam respeito a crença de Jó. Cada pessoa responde individualmente por sua fé. E as vidas das outras pessoas, não valiam nada então? A de Jó tinha um valor inestimável frente a todas a outras?

Não me depararei apenas neste exemplo do uso indiscriminado do poder por Deus. A história nos conta que todos os grandes líderes, ao ter acesso ao poder, foram, de uma forma ou de outra, corrompidos. Isto é uma regra. Alexandre, o Grande; Constantino; Átila; Gengis Khan; Napoleão; Hitler e o próprio Deus. É, Ele também abusou do poder que tem em mãos como se fosse um "playboyzinho" mimado: "se não me obedecerem, vou destruir Sodoma e Gomorra, vou enviar um grande dilúvio para a terra e aniquilar com todos os descrentes ou vou condenar ao castigo eterno a todos que não fizerem o que lhes digo."

Se Deus é amor, é perdão, como Ele pode simplesmente tirar a vida, aplicar um castigo eterno ou meramente, tirar-lhe tudo pela mais pura petulância de um ser egoísta. Para mim, isto não é Deus. Isto é humano demais. Contudo, até os humanos são melhores. Não são aplicados penas eternas aqui na terra. Existem penas pecuniárias, de restrição da liberdade, reclusão, trabalhos forçados, pena de morte, mas não existe penas infindáveis. Seria preferível sermos julgados por nós próprios a sermos julgados pelo "Deus Eterno". Ao menos, as punições humanas têm tempo determinado, já as sobrenaturais, duram para todo o sempre.

Não, eu não posso tolerar e continuar aceitando este, entre diversos outros, exemplo de referência para a condução da minha vida na "verdade real". Não preciso seguir algum deus para ter bom senso e discernimento do certo, do errado ou do justo. A verdade não se esconde sob o manto das "palavras sagradas" mas, sim, sob a história sistemática e científica, contada e pesquisada por ambas partes envolvidas: a vencedora e a derrotada. Ao ser analisado algum fato, não se deve crer na primeira afirmação obtida, ainda mais se for por pessoas que se dizem conhecedoras da verdade e, infelizmente, seguidoras de apenas um único livro, qual seja, a Bíblia Sagrada.

O fato de alguém ter a coragem de questionar os dogmas da Igreja traz como consequência um fardo pesado de ser carregado. O mundo vai estar contra você. A audácia de contestar o incontestável faz de sua figura algo repugnante, algo corrompido, algo criminoso. Por vezes, sinto-me sozinho na caminhada em busca do conhecimento, pois não me é permitido o debate público sobre questões corriqueiras nas quais afrontam a vontade divina. Por vezes me sinto fraco e impotente. Mas, tenho a certeza de que não sou o único.

O que me anima no prosseguir é a certeza de não ter mais os olhos vendados ante verdades e princípios incontestáveis. A coragem em afirmar o NÃO me deixa mais forte, pois, apenas sustenta e confirma a minha crença: não ser dependente de um ser sobrenatural.

Noutro dia, chamaram-me arrogante por não querer discutir certo assunto religioso com determinada pessoa que, na verdade, mal sabe utilizar-se do vernáculo e, muito menos, possui afinidade com livros. Tal afirmação me atingiu como uma surpresa. Não imaginava que estava passando aos outros esta imagem sobre minha pessoa. Mas, ao analisar a afirmativa, concordo no sentido literal da palavra e em sua cominação. Se, ser arrogante é questionar dogmas e verdades absolutas, não estar satisfeito com atitudes tidas como corretas por parte da Igreja ou ter a mente aberta a novas explicações para o mesmo fato no intuito ter uma visão mais ampla sobre caso concreto e complexo, sim, eu o sou. Sou uma pessoa muitíssima arrogante.

Parafraseando Thomas Jefferson, prefiro estar na ignorância, isto é, afastar-me das respostas dos seres metafísicos, a insistir ao erro. Pois tenho certeza que vou estar menos afastado da verdade não "acreditando em nada" do que outra pessoa que acredita no errado.

Não sejamos mais um Jó, que aceita tudo e ergue as mãos para os céus louvando ao seu deus. Ser este, forjado na figura do ser humano conforme suas reais necessidades políticas e sociais, moldado através dos séculos ao bel prazer de seu verdadeiro criador: nós.

Sejamos mais, sejamos maiores, sejamos livres pensadores.

Assim penso. Assim digo. Assim escrevo.


"Tirar a ilusão de uma criança, mostrá-la à triste realidade da vida, quantas vezes for preciso, é um crime necessário para que ela aprenda a viver por si só. Desnecessário é deixar ela crescer confiando e acreditando, por tantos anos, até que um dia ela mesma, adulta e abismada, conclui que, na verdade, fora enganada por toda a vida." (Alfredo Bernacchi)

Direção Perigosa? Acalme-se.